CAMINHO DE SANTIAGO

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          Em 2017 tive o privilégio de peregrinar 804 Km a pé pelo caminho de Santiago de Compostela na Espanha, partindo da França Basca. Foi a aventura mais emocionante da minha vida e por todo o caminho fluia uma energia muito forte. Os motivos de fazer a peregrinação foram religiosos e pessoais. A fotografia ficou em terceiro plano, mas não consegui separar o fotógrafo do peregrino e por isso levei uma câmara Canon G12, pequena, leve e de boa qualidade. As fotos que apresento neste site são para mim carregadas de muita emoção. Desejo que elas transmitam para o público um pouco dos sentimentos que elas me trazem.

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PRIMO

          Caminhando de Belorado com destino à San Juan de Ortega, numa puxada de 25 km com muitas subidas, encontrei um cinegrafista com câmera, tripé e uma bandeirinha da República Tcheca. Disse a ele que meu pai era tcheco e mencionei meu nome. compostella21Ele ficou surpreso : Dusek? Estamos fazendo um documentário sobre um peregrino paraplégico no projeto Camino na Koleckach que está fazendo o Caminho de Santiago em cadeira de rodas e o nome dele é Dusek e ele está com um grupo mais pra frente. Subi correndo a ladeira de pedras e uns 200 metros pra cima encontrei o Jan Dušek de 36 anos e disse pra ele que achava que éramos primos. Contei a minha história e ele contou a dele. Disse pra ele que meu pai se chamava Milan e meu avô se chamava Otakar Dusek. Ele me explicou que o pai, o avô, o bisavô e o tataravô dele, todos se chamavam Jan Dusek. Ele era o quinto dessa linhagem e o filho dele de 12 anos que estava acompanhando o pai era o Jan Dusek VI. Fizemos varias fotos juntos e nos encontramos diversas vezes durante a caminhada.

MUNDO PEQUENO

          Segui a minha sombra de San Juan de Ortega rumo a Burgos num dia ensolarado. Olhei para o céu azul limpinho e vi quatro linhas de fumaça compostella20expelidas pelos aviões a jato em diversas direções deixando seus rastros formando uma espécie de jogo da velha triangular e me veio a ideia da relação tempo e espaço.  Imaginei uma linha de formigas que volta e meia cruzam a estrada de terra, com suas mochilas nas costas fazendo o caminho de Santiago, achei difícil calcular quanto tempo levariam até a Galícia.  Da mesma forma eu relacionei a minha caminhada de 34 dias com os aviões que percorrem a mesma distância em menos de uma hora. Na minha cabeça apareceu a música de Gilberto Gil Parabólicamará:

Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará
Antes longe era distante

Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação


(Parabólicamará – Gilberto Gil).
Cada um tem seu ritmo e se relaciona de forma diferente com o tempo e o espaço.

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Cruz de Ferro, ponto mais alto de todo o caminho (1504 m de altitude)
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CHEGADA

Depois de 34 dias a pé sem entrar em qualquer veículo com rodas, compostella08somente com meus pés e minha Fé cheguei na praça da Catedral de Santiago às 12h15.  A frente da igreja estava em reforma cheia de andaimes e a porta principal estava fechada. Joguei a mochila e o cajado bem no meio da praça no ponto que por invenção da minha cabeça passei a chamar de marco zero. Me deitei no chão de braços abertos sobre a praça e pedi para um peregrino fazer uma foto com a minha Canon G12 . Agradeci e me levantei. Neste momento me vi cercado por um grupo de turistas franceses e de repente me dei conta que eu tinha conseguido cumprir minha missão e desatei a chorar incontrolavelmente. Veio um senhor francês falar comigo e esclareci que eu estava bem mas bastante emocionado. Ele se chamava Julian e disse que sabia exatamente a emoção que eu estava sentindo pois havia três anos ele veio a pé de Lê Puy que é 700 km a mais . Daí eu o abracei, ele me deu um beijo no rosto e começou a chorar emocionado junto comigo.

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